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Em 15 abr, 2017

Coluna do Rafa: Precisamos falar sobre honestidade nas corridas

Vamos discutir assunto sério nesta semana. Os Brasileiros descobriram as corridas, e com o o crescimento espetacular no número de pessoas praticando o esporte, surgiram várias transformações no “mundo dos corredores”, nos mais diversos níveis: o mercado oferece mais e mais opções de artigos de corrida, metodologias de treinamentos, dietas; os eventos se diversificaram e surgiram nichos, como as corridas nas montanhas; grandes marcas investiram forte no país; ganhamos espaço na mídia, e não raro, famosos se ‘convertem’ a este mundo. Todo este crescimento surgiu em paralelo a um aspecto muito importante: os impactos gerados pelas Redes Sociais. Você, que é corredor, certamente vai se deparar com relatos de treinos, fotos de medalhas, descrição de conquistas e etc caso abra seu perfil a qualquer hora do dia. Correr de repente se tornou popular na sociedade, e as Redes Sociais expandiram exponencialmente o alcance dessa popularidade.

A vaidade é inerente ao ser humano, e considero esse exibicionismo nas Redes Sociais até saudável, desde que feito moderadamente. Infelizmente, não é essa a situação de muitos casos que (felizmente!) têm sido desmascarados em Redes Sociais. Participantes de eventos que, normalmente devido ao “vale-tudo pelas curtidas e recompensas de vaidade nas Redes Sociais” extrapolam qualquer limite de bom senso e realizam o repugnante ato de cortar caminho para chegar na frente. Embora essa seja prática antiga, o que antes eram casos isolados, hoje têm se multiplicado e não há mais como deixarmos de lado: eis uma das recentes transformações da corrida que não dá prazer de escrever sobre, mas que está tão evidente que precisamos reagir.

Acontece, e muito. Todo final de semana. A maioria você nem fica sabendo. Nas últimas semanas, dois casos se tornaram mais famosos. Um no Rio Grande do Sul, onde um conhecido e bom corredor amador cortou caminho para chegar no pódio, e outro no Rio de Janeiro, onde uma figura carimbada, que já havia trapaceado em outros eventos (inclusive a São Silvestre), mais uma vez trapaceou (e depois se auto-promoveu nas Redes Sociais).

Por onde foi assunto, o que mais me chamou atenção foi o número de comentários do tipo “conheço outro corredor que faz isso”, “está cheio deste tipo de corredor por aí”, ou relatos mais detalhados, do tipo “corri um evento no final de semana e vi um atleta saltando de um ônibus na minha frente”.

Parece absurdo, mas isto é rotina nos eventos Brasil à fora e se não enfrentarmos o problema de frente, seremos nós mesmos os maiores prejudicados. Nós, os verdadeiros corredores, que temos nem que seja um mínimo de espírito esportivo para saber que cumprir a distância prevista pela organização do evento é inegociável. Somos nós que perderemos troféus e premiações (já pensou que você pode não ter subido ao pódio naquela corrida porque alguém que cortou caminho subiu no seu lugar, e você nem ficou sabendo?), e que veremos a credibilidade do nosso esporte ruir. Não dá pra ficar feliz com esse tipo de notícia – é o equivalente ao doping no mundo do atletismo profissional. É repugnante e anti-desportivo, e temos muito a ver com isso.

Nos Estados Unidos, existe um site especializado em desmascarar esse tipo de fraude, o Marathon Investigation. Há novos relatos semanalmente, e inclusive um serviço oferecido a organizadores de eventos e empresas de chipagem eletrônica que queiram reforçar o controle contra fraudes.

No Brasil podemos fazer a nossa parte de diversas formas.

Contacte e cobre os organizadores sempre que houver indícios claros de fraude. Eles precisam se profissionalizar e fazer a parte deles, ou seja, não apenas desclassificar estes corredores do evento em questão, mas banir esses indivíduos de seus eventos futuros e se possível ainda contactar outros organizadores para que façam o mesmo.

Viu algum atleta com um desempenho surpreendente? Cheque os tempos desse atleta em eventos passados, disponíveis no Google. Não existe milagre na corrida: alguém incapaz de baixar de 20 minutos nos 5 quilômetros não irá baixar de 40 minutos nos 10. Não existe Maratona Sub-3h sem uma Meia-Maratona bem abaixo de 1h30. A Matemática apresenta uma lógica difícil de ser questionada. É por ela que a maioria dos casos de fraudes são descobertos.

Cheque as fotos do evento, procurando o atleta suspeito pelo seu número. Se não encontrar as fotos do mesmo em todos os pontos do percurso onde elas foram tiradas, é um fortíssimo indício de que esse atleta nunca passou por ali.

Se suas suspeitas estão quase no campo da certeza após os passos anteriores, discuta o assunto com outros corredores de confiança e/ou com seu treinador. Busque recomendações e opiniões diversas antes de confirmar suas suspeitas.

E se você conhece pessoalmente alguém que costuma cortar caminho nos eventos, converse com essa pessoa. Procure entender os motivos (eles sempre existem, mesmo que injustificáveis) e instrua a pessoa a não repetir esse comportamento. Indique um tratamento psicológico se julgar necessário. Mas não deixe que essa atitude se repita pela sua omissão.

Se você costuma ter ou já teve esse tipo de atitude, poucas coisas na vida são mais bonitas do que um pedido sincero de desculpas. Você realmente não precisa se mostrar melhor do que é para ser exemplo. Acredite: muitos já se inspiram em você e um “eu errei e não vou repetir” o tornará melhor do que é hoje.

E por fim, uma opinião bem pessoal: grandes corredores tendem a ser mais silenciosos e não fazer alarde de suas performances, por saberem que o reconhecimento aparece naturalmente. Desconfie daquele corredor que todo santo dia costuma se vangloriar de seu desempenho. Conceda o benefício da dúvida, mas permita-se desconfiar. É saudável.

A todos vocês que estão lendo esse texto, eu desejo muita sabedoria no uso das Redes Sociais e muitos quilômetros honestos pela frente.

Lembrem-se: como corredores, vocês já fazem parte de um grupo estatisticamente mais saudável, mais feliz e mais sociável do que a média da população. Não tenham dúvidas que vocês já são exemplo e inspiração para muita gente, e que justamente por isso, também possuem grande responsabilidade. Que sua próxima corrida seja livre de fraudes.

Um grande abraço, e até a próxima coluna!

——

Rafa Maioral costuma dizer que aprendeu a correr antes de aprender a andar. Em 2014, concluiu seu Mestrado analisando a realidade do mercado Running Brasileiro. Corredor amador competitivo, possui 2h41 nas Maratonas, e acredita que pode melhorar. Ele escreve semanalmente a “Coluna do Rafa” com o que de melhor acontece no atletismo mundial e a realidade running no Brasil. 

  • Por pracorrer  1 Comentários   5
  • cortar caminho; fraude corrida;

    1 Comentários

    Por Vanderlei em
    • 17 abr 2017
    Responder  
    Que prazer alguem pode ter em olhar um troféu na parede sabendo q ele foi ganho com falcatrua? Gostoso é olhar sabendo q ele foi conquistado com sacrificio.

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