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Em 30 mar, 2017

Coluna do Rafa: a Maratona Sub-2h é uma loucura… mas nem tanto!

O assunto no mundo do atletismo no momento é a “Maratona abaixo de duas horas”, em especial após duas gigantes do mercado esportivo entrarem pra valer na jogada. A Nike, por sinal, anunciou que três dos seus melhores atletas – incluindo o queniano Eliud Kipchoge, o melhor deles – farão uma tentativa no autódromo de Monza na Itália, embora nem todos os detalhes tenham sido divulgados. Desde então, muito já foi escrito sobre o assunto, e os especialistas têm sido unânimes em desacreditar a ideia, afirmando categoricamente que não veremos a Maratona abaixo de duas horas este ano, e que tudo não passa de uma grande jogada de Marketing. Será?

A improbabilidade matemática.

A essa altura você provavelmente já sabe que a Maratona abaixo de 2h é praticamente impossível, mas se nunca te explicaram direito, aqui vai, de maneira bem objetiva. Para atingir o sonhado 1h59m59s, é necessário baixar em 2m58s a marca obtida pelo Queniano Denis Kimmetto em 2014, o atual recorde mundial. Isso corresponde a baixar em 2.41% a marca atual. Sabe quando isso aconteceu nas Maratonas nos últimos 50 anos? Nunca. O Australiano Derek Clayton foi quem chegou mais perto; em 1967 ele baixou 2m24s do recorde antigo, ou 1.81%. Teríamos de voltar para 1952, quando o britânico Jim Peters correu quase cinco minutos mais rápido que o recorde vigente, para encontrar uma performance estatisticamente semelhante. Acontece que na época de Peters o recorde da Maratona estava na casa das 2h20. Era muito mais razoável os recordes caírem por minutos nos anos 50 do que hoje, quando o esporte evoluiu incrivelmente e viu a ascensão dos atletas africanos (o que nos anos 50 praticamente não existia).

Outra análise que mostra o quanto é difícil é a partir do recorde mundial de Meia-Maratona, de 58m23. Para um atleta correr a Maratona abaixo de duas horas, teria de fazer uma passagem de Meia em torno de 1h00m00s com relativa facilidade, de modo a aguentar uma segunda Meia-Maratona na sequência em no mínimo 59m59s. Acontece que não há hoje atleta no mundo que consiga correr uma Meia-Maratona em 1h00m00s com esse nível de ‘facilidade’. Em outras palavras, qualquer atleta correndo uma Meia-Maratona tão rápido iria “quebrar” na segunda metade da prova. Veja a análise dos recordes mundiais das principais distâncias do atletismo:

* 5000m – 12m37s (Kenenisa Bekele), pace de 2m31s4 por quilômetro.
* 10.000m – 26m17s (Kenenisa Bekele), pace de 2m37s7 por quilômetro. (+6.3s por quilômetro)
* Meia-Maratona – 58m23s (Zarsenay Tadese), pace de 2m46s0 por quilômetro. (+8.3s por quilômetro)
* Maratona – 2h02m57s (Denis Kimmetto), pace de 2m54s8 por quilômetro. (+8.8s por quilômetro).

Perceba que à medida que aumentamos a distância, o pace médio do atleta recordista mundial também se torna cada vez mais lento em relação à distância anterior.

Agora veja o pace necessário para o 1h59m59s: 2m50s6. Isso representa apenas 4.6s a mais por quilômetro do que o pace do recorde mundial de meia-maratona. É menos do que a diferença entre 5000m e 10000m, ou entre 10000m e Meia.

Por onde se olhe, seja por história do esporte, seja por análise matemática, percebe-se que a Maratona abaixo de duas horas é altamente improvável. Mas isso não significa que a proposta não possa ser interessante e até necessária…

Porque não estamos tão longe assim do Sub-2h.

1) O recorde mundial da Maratona já poderia ser mais baixo.
Embora Denis Kimmetto tenha o recorde, o título de melhor performance vai para Eliud Kipchoge em Londres 2016. Ele correu 2h03m05s  (apenas 8s atrás do recorde) correndo os primeiros 10 km da prova muito rápido (em 28m36s). Mesmo assim, Kipchoge ainda teve gás para correr do KM 40 até o final em 6m16s (pace de uma Maratona em 2h00m27s).  Tivesse sido mais conservador no início, e não é difícil imaginar que Kipchoge poderia ter o recorde mundial. Assim como Bekele, que também em 2016 produziu a passagem de Meia-Maratona mais rápida da história em Berlim (1h01m11s). Poderia ter o recorde sendo um pouco mais conservador…

2) O recorde mundial de Meia-Maratona também poderia ser mais baixo.
Eu sei, eu sei. É muito “se” e muito “poderia”. Mas estamos analisando uma marca tida como impossível e para isso temos que ter um olhar à situação ‘ideal’. Como todo recorde mundial, o 58m23s de Zarsenay Tadese é espetacular e muito difícil de ser batido, mas entre os recordes do Atletismo, é possível que esse seja o mais fácil de ser quebrado. Consideremos que Tadese, um dos melhores atletas de seu tempo nos 10.000m em pista, era constantemente derrotado por Kenenisa Bekele, e que Bekele correu os 10.000m 20 segundos mais rápido que Tadese. O recorde de Meia foi feito por um atleta brilhante em dia inspirado, mas é bem provável que Bekele teria corrido consideravelmente mais rápido (e possivelmente Kipchoge também). A verdade é que ambos nunca correram uma Meia-Maratona com intuito de bater o recorde, mas as evidências do passado indicam que isso seria não só possível, mas provável.

3) O projeto da Nike é inédito e por isso é complicado estabelecer parâmetros do que é e do que não é impossível.
A Nike está investindo muito dinheiro para desafiar essa barreira. É a primeira vez que três dos maiores atletas do atletismo (inclusive os citados Tadese e Kipchoge) correm exclusivamente para superar o relógio. A empresa está lançando um tênis especial para a tentativa, apostando em um autódromo de Fórmula 1 onde teria maior controle sobre as variáveis (temperatura, vento, hidratação/nutrição dos atletas) e, muito importante, em um controle de ritmo para os atletas. Surgem duas perguntas:
1) Se em condições normais Kipchoge já demonstrou ser capaz de correr a Maratona em pelo menos 2h02m30s, o quanto é possível baixar dessa marca com um controle melhor das variáveis?
2) Até onde vai a Nike para baixar das duas horas? Já se especulou que a empresa usaria túneis de vento no autódromo… e se isso acontecer, qual a credibilidade que terá o suposto recorde mundial?

Porque é quase impossível que vejamos o sub2h esse ano… mas porque a tentativa pode ser incrível de qualquer jeito.

Convenhamos: lidar com a possibilidade da Maratona abaixo de duas horas tem trazido uma atenção especial da mídia ao Atletismo. Acho muito próximo do impossível vermos o sub2h em condições legais este ano e bastante improvável considerando artifícios como túnel do vento e tênis com molas, mas ao mesmo tempo, acho possível vermos a melhor marca Mundial da Maratona baixar consideravelmente. Nem precisa de muito: basta um Eliud Kipchoge ainda melhor do que estava em 2016 e um bom controle de ritmo por quilômetro, e não se torna algo surreal imaginar uma Maratona abaixo de 2h02m00s. Muito difícil, mas não absurdo.

Mas mais bacana ainda seria focar o projeto em fazer os atletas correrem o máximo possível no ritmo abaixo de 2h00. Por quantos quilômetros aguentariam? 30? Quem sabe até chegar aos 35?

Não veríamos o sub2h de qualquer jeito, mas seria uma corrida interessante “manter o sonho vivo pelo máximo de tempo possível”.

Concluindo, embora seja sim jogada de Marketing e eu duvidar que a Maratona abaixo de duas horas vai sair tão cedo, acho que vale a tentativa e estou ansioso para acompanhar.

Em 1954 Roger Bannister correu a milha abaixo de 4 minutos (um feito que tantos antes diziam ser impossível), mas não chegou lá sozinho. Mais de dez anos antes, uma dupla de suecos, Gunder Hagg e Arne Andersen, baixaram a marca até o 4:01. Eles tornaram o “impossível” sub4 mais crível, permitindo a Bannister sonhar.

Como Ronaldo da Costa e Samuel Wanjiru anteriormente, o projeto sub2h da Nike segue a mesma linha. Um dia nós veremos a Maratona abaixo de duas horas. Demorará anos, talvez décadas. Mas quando lá chegarmos, certamente será possível visualizar no passado não apenas uma enorme jogada de marketing, mas também uma peça importante no processo.

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Rafa Maioral costuma dizer que aprendeu a correr antes de aprender a andar. Em 2014, concluiu seu Mestrado analisando a realidade do mercado Running Brasileiro. Corredor amador competitivo, possui 2h41 nas Maratonas, e acredita que pode melhorar. Ele escreve semanalmente a “Coluna do Rafa” com o que de melhor acontece no atletismo mundial.

 

  • Por pracorrer  1 Comentários   1
  • maratona, maratona abaixo de duas horas, sub2h

    1 Comentários

    Por Douglas em
    • 17 abr 2017
    Responder  
    Bela matéria! Colocando assim em números fica fácil de entender o tamanho do desafio! Pra ficar ainda mais interessante poderiam criar um infográfico sobre estes dados da matéria! Parabéns pelo conteúdo!

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