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Em 22 mar, 2017

Coluna do Rafa: como um Brasileiro e um Queniano fizeram o mundo sonhar com a Maratona Sub-2H

Sou um apaixonado pelos números e pelas Maratonas. Embora minha formação seja na área de negócios e tenha seguido o caminho da Gestão Esportiva, o fascínio que Matemática e Corrida causam em mim vem de berço. Pesquiso, leio, estudo sobre corrida, números e fisiologia quase que diariamente. É natural que tenha escolhido este tema como reabertura da minha coluna, afinal, nos últimos meses, a Nike chocou o mundo Running ao anunciar o projeto de fazer um corredor terminar uma Maratona abaixo de 2h00’00” em 2017, e a Adidas foi rápida em contra-atacar, anunciando que vai seguir uma linha diferente, mas com o mesmo objetivo de alcançar o número mágico. Corredores do mundo inteiro se perguntam: afinal, será possível que um corredor possa correr o Sub2h em 2017? Responderemos essa pergunta na coluna da próxima semana, mas antes, vamos começar fazendo justiça à história e relembrando dois corredores aos quais Nike e Adidas devem muito por estarem cogitando a possibilidade do sub2h. Acredite se quiser: essa história do sub-2h deve muito a um Brasileiro.


O recorde de Ronaldo da Costa muda a história das Maratonas

Fazia 10 anos que o recorde da Maratona não era quebrado quando o brasileiro Ronaldo da Costa, relativamente desconhecido no cenário internacional, bateu o recorde mundial que mudaria tudo, em Berlim, 1998. Considero este um dos mais relevantes recordes mundiais da Maratona, e por vários motivos:

Ronaldo da Costa cruza a linha de chegada, segundos
antes de “virar uma estrela”. Foto – Globo

1. Foi a primeira vez que o recorde caiu na Maratona de Berlim. Dali pra frente, esta seria a Maratona onde quase todos os recordes e tentativas de recordes seriam realizados. A própria organização do evento percebeu que era uma chance de se posicionar, e se tornou conhecida no mundo como “a maratona mais rápida do mundo, onde os recordes são superados”.

2. Foi a primeira vez que se correu uma Maratona inteira com a média abaixo de 3:00min/km. Isso representou uma grande quebra psicológica a corredores de elite do mundo todo.

3. E, principalmente, a incrível maneira como o recorde foi quebrado. Primeiro por ser um Brasileiro desconhecido no cenário nacional. Segundo – e poucos se lembram ou dão importância a esse fato – pela monstruosa segunda metade da prova. Ronaldo concluiu a segunda Meia da prova em 1h01’23″ (até hoje uma das mais rápidas da história), e cruzou a linha de chegada dando uma famosa “estrela”.

Imagine que mensagem isso passou ao mundo dos maratonistas de Elite! Um Brasileiro desconhecido podia quebrar o recorde mundial da prova, correndo abaixo de 3:00 min/km, correndo a segunda metade em 1h01’23” e chegando daquele jeito, com uma “estrela”?

Ali se percebeu que o Recorde Mundial da Maratona era relativamente “fraco” em relação a outras distâncias. O próprio Ronaldo poderia ter corrido mais rápido, tivesse feito uma prova mais constante. Ao mesmo tempo as premiações cresceram, e as próprias Maratonas, sobretudo a de Berlim, começaram a investir na quebra de recordes. Corredores do mundo inteiro se deram conta: era possível!

Não por acaso, apenas um ano depois, em Chicago, o Marroquino naturalizado Americano Khalid Kannouchi correu na casa de 2h05. Em 2003, a Maratona chegava à casa dos 2h04, com o Queniano Paul Tergat. Em 2008, na casa dos 2h03, com Haile Gebrselassie. E finalmente, em 2014, à casa de 2h02, com o atual recorde Mundial do queniano Dennis Kimmetto (2h02’57”).

De Ronaldo pra cá, o recorde da Maratona foi quebrado mais oito vezes.

Mas esse número não conta exatamente o que é a realidade das Maratonas hoje.

Antes precisamos conhecer o segundo personagem dessa história do sub2h.

 

Samuel Wanjiru e a Maratona Olímpica de Beijing em 2008

O etíope Haile Gebrselassie não só era o melhor maratonista do mundo em 2008; era também o atual recordista mundial da prova, e estava em grande forma (semanas após as Olimpíadas de Beijing em 2008 ele correria seu famoso 2h03’59”em Berlim). Entretanto, Haile se negou a competir na Maratona Olímpica na China, criticando duramente as condições oferecidas na capital chinesa (onde a poluição é extrema).
Imaginem a surpresa, então, quando o queniano Samuel Wanjiru larga a prova em ritmo de recorde mundial. “Um suicida inexperiente”, foi o que muitos disseram defronte à TV. Mas Wanjiru não quebrou. Terminou a prova em 2h06’32”, conquistou o primeiro ouro olímpico da Maratona para o Quênia, e cravou seu nome na história das Maratonas, quebrando o recorde olímpico que perdura ainda hoje. Wanjiru simplesmente apagou a barreira psicológica dos “2h06”. Se 10 anos antes Ronaldo da Costa mostrava que era possível, em 2008 Wanjiru mostrava que, se era possível correr 2h06 em Beijing, então era possível correr 2h06 em qualquer lugar do mundo. Foi a “banalização do 2h06” para Quenianos e Etíopes.

Wanjiru bate o recorde olímpico na capital chinesa. Foto: runnersworld.com

A partir daí, “2h06” não seria mais um tempo de recorde mundial. Seria um excelente tempo, mas absolutamente possível de ser alcançado. Foi somente com essa marca consolidada que “a nata da nata”  da corrida passou almejar pra valer o 2h03 e o 2h04.

 

Os impressionantes números da Maratona de alta performance dos dias de hoje

Ronaldo da Costa quebrou o recorde mundial em 1998. Não faz tanto tempo assim. Em que posição você imagina que Ronaldo está no Ranking histórico da prova? Isto é, quantas marcas foram mais rápidas que 2h06’05 de 1998 pra cá? Talvez ele esteja na posição 20? 50? Quem sabe 100?

Pois prepare-se: Ronaldo da Costa tem hoje apenas a marca número 136 da história.

Isso significa que 135 vezes a Maratona foi completada mais rápido que 2h06’05” desde 1998.

52 vezes a Maratona completada abaixo de 2h05’00!

E 14 vezes abaixo de 2h04’00. O histórico 2h03’59” de Haile Gebrselassie é hoje apenas a 14a melhor marca de Maratonas da história.

Certo, então a barreira das 2h está com os dias contados e prestes a ser quebrada?

Bem… isso é assunto para a nossa próxima coluna.

——-

Rafa Maioral costuma dizer que aprendeu a correr antes de aprender a andar. Em 2014, concluiu seu Mestrado analisando a realidade do mercado Running Brasileiro. Corredor amador competitivo, possui 2h41 nas Maratonas, e acredita que pode melhorar. Ele escreve semanalmente a “Coluna do Rafa” com o que de melhor acontece no atletismo mundial.

  • Por pracorrer  1 Comentários   
  • maratona, maratona abaixo de 2h, sub2h

    1 Comentários

    Por Juan Silveira em
    • 23 mar 2017
    Responder  
    É isso aí Rafa, desde o invento do relógio, quebrar um recorde, seja ele mundial, nacional ou pessoal, é um dos motivadores dos corredores. O atleta amador sempre está disposto a melhorar seu tempo, assim como os profissionais, e a indústria sabe disso. A Nike e Adidas com esse projeto deles, estão lançando calçados de U$250 no mercado com esse intuito, porém o projeto é feito baseado na morfologia de maratonistas de elite, ou a "nata da nata". Eu gostaria que você pudesse escrever um texto sobre até que ponto o tipo do tênis influencia um corredor amador, seja ele iniciante ou semi-pro. Abraço e continue com essa coluna sensacional!

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